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caneta&café

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    • 101 coisas em 1001 dias

    1. A violência neuronal
    A violência viral parte daquelas singularidades que se instalam no sistema como células potenciais terroristas, e buscam minar o sistema a partir do interior. Baudrillard apresenta o terrorismo como a principal figura da violência viral, em consequência de uma revolta do singular frente ao global (p.7)
    A violência neuronal não parte mais de uma negatividade estranha ao sistema. É antes uma violência sistêmica, isto é, uma violência imanente ao sistema (p.12)

    2. Além da sociedade disciplinar
    seus habitantes não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos. Nesse sentido, aqueles muros das instituições disciplinares, que delimitam os espaços entre o normal e o anormal, se tornaram arcaicos (p.14)
    A sociedade de desempenho vai se desvinculando cada vez mais da negatividade. Justamente a desregulamentação crescente vai abolindo-a. O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade de desempenho. O plural coletivo da afirmação Yes, we can expressa precisamente o caráter de positividade da sociedade de desempenho. No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação (p.14)
    A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados (p.14-15)
    Assim o inconsciente social do dever troca de registro para o registro do poder. O sujeito de desempenho é mais rápido e mais produtivo que o sujeito da obediência. O poder, porém, não cancela o dever. O sujeito de desempenho continua disciplinado (p.15)
    O que nos torna depressivos seria o imperativo de obedecer apenas a nós mesmos. Para ele, a depressão é a expressão patológica do fracasso do homem pós-moderno em ser ele mesmo (p.15)
    O homem depressivo é aquele animal laborans que explora a si mesmo e, quiçá deliberadamente, sem qualquer coação estranha. É agressor e vítima ao mesmo tempo (p.15)
    O sujeito de desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. O depressivo é o inválido dessa guerra internalizada. A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade. Reflete aquela humanidade que está em guerra consigo mesma (p.15)
    Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal (p.17)

    3. O tédio profundo
    O excesso de positividade se manifesta também como excesso de estímulos, informações e impulsos. Modifica radicalmente a estrutura e economia da atenção. Com isso se fragmenta e destrói a atenção (p.18)
    A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se antes de um retrocesso. A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção, indispensável para sobreviver na vida selvagem (p.18)
    A cultura pressupõe um ambiente onde seja possível uma atenção profunda. Essa atenção profunda é cada vez mais deslocada por uma forma de atenção bem distinta, a hiperatenção (hyperattention) (p.19)
    Quem se entedia no andar e não tolera estar entediado, ficará andando a esmo inquieto, irá se debater ou se afundará nesta ou naquela atividade. Mas quem é tolerante com o tédio, depois de um tempo irá reconhecer que possivelmente é o próprio andar que o entedia. Assim, ele será impulsionado a procurar um movimento totalmente novo. O correr ou o cavalgar não é um modo de andar novo. É um andar acelerado (p.19)
    “Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo” - Nietzsche (p.20)
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    Internet e Rua - Ciberativismo e mobilização nas redes sociais é um livro escrito por Fábio Malini e Henrique Antoun e publicado em 2013. A obra trata de ciberespaço, cibercultura e, especialmente no trecho abordado neste fichamento (pgs.152-165), ciberativismo. Liberdade, Economia, disputa de narrativas, discursos, mediação... o que isso tem a ver com Cibercultura?


    1. Ciberativistas nas Redes e Ruas - Monitoramento dos dados, vazamento da informação e anonimato do público

    Na década de 1990, o uso da Internet, associado às dinâmicas de produção e consumo de portais, transformou a rede num enorme laboratório da publicidade. E, de certa forma, a dinâmica de fragmentação, legitimada pelas infi nidades de redes de pequenos mundos centralizados, empurrava a web para uma experiência majoritariamente baseada no download de sites (p.152)
    A Internet de hoje se transmutou, sem dúvida. A atuação social, a mobilização e o engajamento viraram um valor da rede, contrapondo aquele pensamento de felicidade eterna da web comercial, que contaminava a economia e a política. Em grande medida, essa metamorfose tem a ver com a emergência das dinâmicas ativistas, já no fi nal dos 90, que fi zeram resgatar o sentido originário peer-to-peer da Internet, dando a ela um novo uso (p.152)

    Os autores citam embates como TV x Youtube e blogs x jornais para esclarecer que:

    O que está se discutindo é o poder das mídias irradiadas de massa em relação às mídias distribuídas de multidão. Hoje cada vez mais se explora e se esgarça o confronto entre os veículos da informação massiva e as interfaces da comunicação coletiva (p.153)
    Até bem pouco tempo atrás se podia ouvir os formadores de opinião falar com desdém nas entrevistas que nos blogs só se escrevia para si mesmo. Hoje, depois do estremecimento provocado na mídia corporativa pelo crescimento da prolífica produção blogueira, o pouco caso de tal comentário só poderia despertar gargalhadas por sua infelicidade e cegueira (p.153)
    O fato é que a mídia irradiada vem sofrendo sucessivos e inesperados revezes em áreas onde, antes, o seu domínio tinha por limite o orçamento monetário de quem a contratava. Cada vez mais ela vê seu lugar de mediadora social da opinião pública ser denunciado e rejeitado como coercitivo por partes signifi cativas das grandes massas, que antes se deixavam de bom grado representar (p.153) 
    Daí que, por ora, há todo um conjunto novo de disputas e conflitos sobre a produção e a regulação da liberdade na Internet, na medida em que todo o valor capitalista está radicado em fazer os conectados livres permanecer dentro de limites programáveis e de conexões preestabelecidas, para recolher destes toda a sua produção social. É o paradigma de produção colaborativa do “tudo é meu” (p.153)
    Na contramão deste movimento, há todo um outro que visa inflar de liberdade a rede, a partir da disseminação de dispositivos que aceleram a socialização e o compartilhamento de conhecimentos, informação e dados, seguindo novos modelos de direito público, abrindo um conflito com a governança capitalista da liberdade na rede (p.154)

    No final dos anos 90 e começo dos 2000...

    O consumidor tornara-se um usuário cada vez mais exigente, capaz de interagir e se comunicar através da Internet usando os mais diferentes tipos de dispositivos de comunicação. A mediação da publicidade ou dos grandes mídia estava sendo trocada pelas interações e recomendações obtidas através das redes sociais [...] A mediação tinha fugido da mão dos grandes mediadores (p.154)
    Uma liberdade de leitura e interpretação não é o mesmo que uma liberdade de construção e emissão. Mesmo o leitor mais ativo é ainda passivo na perspectiva da luta para produzir a informação capaz de transformá-lo em um sujeito com atividade e autonomia (p.156)
    O uso da informação para confundir, decepcionar, desorientar, desestabilizar e desbaratar uma população ou um exército adversário marca a transformação radical da informação usada como arma de guerra [...] Em termos gerais toda operação conduzida para explorar informações para obter uma vantagem sobre um oponente e para negar ao oponente informações que poderiam lhe trazer uma vantagem faz parte da guerra de informações (p.156)
    Não se vive mais em sociedades de cultura unificada ou hegemônica cuja reprodução social se faz através de processos culturais homogêneos, como supõe uma bolorenta hipótese antropológica. Vive-se na fábrica social onde as populações lançam mão dos mais diferentes processos culturais em conflito. Enquanto os diversos processos culturais procuram reproduzir os meios e modos de vida capazes de ampará-los, as populações misturam diferentes partes destes diversos processos misturando-as e recombinando-as em busca de sua autonomia (p.156-157)
    A Internet teria emponderado uma demanda de participação, produção e honestidade incompatíveis com as comunicações invasivas e unilaterais (p.157)
    As novas narrativas multitudinárias vão fazer a passagem do modelo informacional das mídias, que privilegia a acumulação quantitativa proprietária de produtos, para o modelo comunicacional das multimídias, que privilegia a coordenação da ação coletiva nos movimentos (p.157)

    2. Monitoramento e disputa pela primazia das narrativas
    O choque de poderes entre as mídias de massa e as interfaces de usuários é um fato inegável. A mídia irradiada cada vez mais ressalta seu poder de atingir uma quantidade imensa de público em uma só tacada (p.158)
    A produção de subjetividade da mídia massiva esbarra em seu produto mais notório: os fans – esses pequenos fanáticos com momentâneas opiniões compactas disseminados em profusão pelo poder da irradiação (Jenkins, 2006). Ela produz seus efeitos em prazo curto, gerando estes pequenos fanatismos em torno de suas causas (p.158)
    Embora a mídia irradiada de massa seja uma valiosa máquina de construção e destruição instantânea de reputação social, as mídias distribuídas de grupo têm se revelado uma poderosa máquina de criação e sustentação de reputação duradoura, funcionando em longo prazo (p.158)
    Enquanto a mídia massiva extrai seu poder da sensação de “todo mundo está falando isso” subentendido em seu uníssono, as interfaces de usuários encontram o seu poder na sensação de “meu amigo recomendou” ancorado na suposta confi abilidade da fonte da informação (p.158)
    Os autores, então, passam a identificar dois tipos de "disputas" na web, uma disputa de narrativas entre as mídias cooporativa e "alternativa".
    O uso intensivo dos grandes meios massivos, pertencentes às corporações, para gerar a impressão de realidade sobre algum tipo de acontecimento foi chamado de guerra da informação (infowar). Através desta guerra, a informação é usada para produzir efeitos de percepção ou efeitos afetivos sobre alguma população ou grupo social, visando tanto promover ou inibir sua própria ação enquanto grupo, quanto inibir ou promover algum tipo de ação social sobre esta população (p.158-159)
    O uso intensivo das interfaces de comunicação da Internet para estabelecer uma verdade narrativa sobre algum acontecimento e disseminar narrativas sem lugar na mídia corporativa foi chamado de guerra em rede (netwar). Através desta guerra, movimentos sociais ou pequenos grupos podem disputar a primazia da narrativa verdadeira com Estados, instituições e corporações (p.159)
    A narrativa vitoriosa será aquela que obtiver a confiança da opinião pública  (p.159)
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    Como vive nossa sociedade? Como a tecnologia afeta a nossa cultura e existência? O que é cibercultura e como ela se relaciona com o chamado imaginário tecnológico? Em Os computadores também sonham? Para uma teoria da cibercultura como imaginário, Erick Felinto aborda estas e outras questões da relação homem-tecnologia.
    Vivemos hoje um momento de inaudito fascínio com o desenvolvimento dos meios de comunicação. A miniaturização das tecnologias de comunicação, bem como sua crescente mobilidade, presentes em aparatos como telefones celulares, palmtops e notebooks tornaram a comunicação mediada um fenômeno tão ubíquo que já não é mais possível escapar do mandado da comunicação (p.3)
    A cibercultura representa, nesse sentido, o instante supremo de realização da comunicação tecnológica: sem limites, sem fronteiras, sem ruídos – uma comunicação total (p.3)
    Erick Felinto (autor)
    Por outro lado, contudo, também é possível marcar uma diferença “ontológica” da cibercultura em relação a períodos precedentes. Essa diferença se radica na propalada passagem do paradigma “analógico” para o “digital”. A cibercultura assinala sua especificidade com base nesse novo modelo tecnológico, cujas características seriam inteiramente distintas do modelo anterior (p.4)
    Na cibercultura, o valor supremo é a informação representada numericamente. Em outras palavras, a cibercultura promoveu uma radical “informatização” do mundo – uma visão na qual toda a natureza, incluindo a subjetividade humana, pode ser compreendida como padrões informacionais passíveis de digitalização em sistemas computadorizados (p.4)
    O mapeamento do genoma humano nos computadores que desfiam as seqüências genéticas em estruturas binárias constitui talvez o melhor exemplo desse processo de “informatização” (p.4)
    Sonho Coletivo de Computadores | Psicodelia 


    Se o homem pode ser traduzido em partículas de informação discretas, então por que não seria possível aperfeiçoá-lo através da manipulação consciente dessas mesmas informações? (p.4)
    A cibercultura constitui um universo no qual cada átomo e partícula se traduzem efetivamente em informação e comunicação. Diante dessa situação, não é de espantar a proliferação de conceitos que atravessam áreas tão distintas como a genética, as ciências sociais e as ciências computacionais (p.4)
    Um desses conceitos toma corpo na estranha palavra “meme”. Cunhado pelo geneticista Richard Dawkins em seu livro The Selfish Gene (1976) 3 , o termo designa uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre quaisquer outros sistemas de armazenamento de informação (p.4)
     A informação é, nesse sentido, um conceito-chave da cibercultura, assim como de certas interpretações contemporâneas das fundações do cosmos físico (p.4)
    Que tipo de definição poderia nos ajudar a conquistar uma visão mais precisa a respeito da cibercultura? Segundo André Lemos, ela se constitui essencialmente como “cibersocialidade”, ou seja, “[...] uma estética social alimentada pelo que poderíamos chamar de tecnologias do ciberespaço” (p.5)
    A presença do prefixo “ciber” em diversas outras palavras em voga – de “cibersexo” a “ciberarte” – é indicativa do caráter difuso que a cibercultura possui na contemporaneidade.  (p.5)
    Que categoria poderia, portanto, unificar formas de sociabilidade, representações sociais e estéticas? Arriscamo-nos a responder com a categoria de imaginário. O imaginário, explica Hélène Vèdrine, é aquilo que “[...] trabalha, do interior, todos os sistemas e os obriga a afinar seus conceitos, quer se trate do simbólico, do estético, do conhecimento e de seus prolongamentos dirigidos à estética e à política. Ele se encontra, portanto, no centro de todos os dispositivos de saber” (p.5)
    Força social central, “[...] condição inevitável da vida em sociedade” (VÈDRINE,1990, p. 10), o imaginário se encontraria na fundação de saberes, práticas e representações sociais. A complexidade e abrangência da noção são, ao mesmo tempo, sua bênção e maldição. Bênção porque permite explicar fenômenos como o de cibercultura sem eliminar nenhuma de suas dimensões possíveis; maldição porque ele nos obriga a continuar transitando em um território nebuloso, de contornos imprecisos e de cientificidade algo “frouxa” (p.5) 
    Um “imaginário tecnológico” é uma espécie de força social que projeta sobre a tecnologia determinadas imagens, expectativas e representações coletivas (p.6)
    A cibercultura poderia, assim, ser definida como um imaginário tecnológico fecundado a partir do paradigma (e visão de mundo) digital (p.6)
    O imaginário tecnológico compreende, portanto, os processos por meio dos quais características, projetos e sonhos de determinadas época e sociedade se plasmam em aparatos materiais, bem como o impacto que esses aparatos ensejam, uma vez convertidos em realidades do cotidiano, na imaginação coletiva da cultura no seio da qual foram concebidos (p.6)
    Com finalidade exclusivamente metodológica, seria possível sugerir a existência de três domínios distintos nos quais se poderia estudar o imaginário da cibercultura:
    a) o domínio das comunicações, práticas e visões sociais envolvendo as tecnologias digitais;
    b) o domínio das representações ficcionais nas quais se pode observar a presença de elementos ( tropos , mitemas etc.) característicos de uma visão de mundo “cibercultural”
    c) o domínio das apreensões teóricas a respeito do “fenômeno cibercultura” (p.6)
    Enquanto o primeiro domínio envolve o estudo dos modos como se imaginam e realizam as interações tecnológicas, bem como as imagens sociais do tecnológico (por exemplo, na publicidade), o segundo implica a análise de filmes, narrativas ficcionais (por exemplo, contos ou romances de ficção científica) ou videogames, e o terceiro abarca a investigação crítica das elaborações teóricas, de modo a nelas apontar as repercussões do imaginário tecnológico (p.7)
    A cibercultura é uma ficção social para a qual colaboram até mesmo as teorias da cibercultura. E seria um grave erro desconsiderar a importância e a centralidade de nossas ficções para a vida social (p.7)
    A cibercultura se manifesta como um imaginário no qual o paradigma digital chega para realizar um sonho imemorial da humanidade: a transcendência das limitações humanas, a manipulação da realidade convertida em padrões de informação, a conquista absoluta da natureza e das leis do cosmos – em uma palavra, a divinização do homo ciberneticus (p.8)
    A tecnologia se apresenta como uma espécie de magia. O irracional primitivo, aparentemente expulso da cultura pelo desejo de ciência da modernidade, retorna na forma de um fetichismo tecnológico no qual as máquinas adquirem valor imanente e são pensadas como seres dotados de agência própria (p.8)

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    Juliana Teixeira

    Estudante de Com. Social - Jornalismo e coautora do Nós, Voz & Eles. O C&C foi criado para o módulo de Web da disciplina de Introdução às Técnicas Jornalísticas durante o semestre 2017.2 e será atualizado com os conteúdos de Cibercultura em 2018.1 (+)

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